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Por André Acioli e Augusto Uchôa*

A notícia da morte de um professor universitário por aluno, em Belo Horizonte, me motivou a escrever este artigo. Um assunto complexo que é debatido entre os professores em encontros extraclasse. Creio que posso falar sobre o tema com certa imparcialidade, pois sempre fui aluno, sou aluno e há alguns anos, atuo também como professor.

Percebo um processo crescente de agressão a professores. Tenho visto que a ideia de aluno-cliente parece ter atingido seu ponto máximo de deturpação. A visão tornou-se distorcida talvez em função da linha tênue que separa os dois conceitos desta relação. Percebo uma cobrança máxima do professor pelos alunos e uma dedicação mínima por boa parte dos últimos.

Diferente de outros serviços, onde cada um tem plena noção do que pode e deve fazer no seu papel de cliente, bem como sabe até onde pode exigir do prestador, a sala de aula não funciona bem assim. A literatura de serviços diz que os clientes possuem papeis a serem seguidos e, eventualmente, quando tais papeis não são exercidos como deveriam, tornam-se indesejados.  Ou numa situação inversa, o cliente ao se deparar com incidentes críticos, como encontro de serviços insatisfatórios, muda-se para a concorrência. Simples assim.

Se em meio à comercialização de bens, onde a interação entre vendedor e comprador é menor, isto já acontece, em serviços, é ainda pior. Uma influência negativa ou fora dos padrões apropriados para a boa relação entre as partes pode alterar a expectativa e a entrega de qualquer serviço como um todo; prejudicando os clientes que não têm nada a ver com isto.

O caso do assassinato é o ápice do extremismo e deve nos fazer refletir sobre o modelo educacional mercantilista ao extremo, que alguns insistem em adotar. Numa visão prática deste extremo, convivo com professores que desenvolveram traumas de entrar em salas de aula e questionam seu amor em lecionar por conta desta relação, muitas vezes perversa, entre professores e alunos. Docentes que temem não agradar seus “clientes” e serem punidos – como já vi em algumas situações – por seus empregadores.

No setor de serviços, são os clientes os principais avaliadores do desempenho. Valho-me das palavras de um grande amigo que diz: “ser professor é uma das profissões mais difíceis do mundo, pois em poucas carreiras existem tantas avaliações por um número tão grande de pessoas”. Esta condição é para quem, realmente, ama exercer a docência; para mim, tão nobre quanto desgastante.

Lembro-me de muitos casos de agressão física a professores e não me recordo de ter visto tantos em outros modelos de prestação de serviços. Na classe médica, por exemplo, em que o marketing de serviços é classificado como mero serviço profissional e que tem na saúde o seu serviço núcleo, a possibilidade de insatisfação do “cliente” me parece bem mais crítica do que na educação. Não seria?

Minha proposta não é tomar partido em defesa dos professores ou da generalização dos maus exemplos de alunos; trata-se apenas do desabafo de uma pessoa que se posta diariamente à frente de dezenas de alunos, para oferecer-lhes os anos de experiência e estudos, e que tem sofrido, mais do que com a morte do colega, com a morte da Educação.

Como aluno, vale lembrar que não sou a favor de professores que não gostam de alunos, que não se reciclam, que se fecham para novas metodologias de ensino e se acham acima do bem e do mal. Rejeito os “senhores da verdade” que esqueceram que o binômio ensino-aprendizado é uma via de mão dupla. Ensinar a aprender é um processo de autoalimentação, pois para gerar o conhecimento em debates ricos que nos fazem pensar, refletir e questionar, são necessários mais do que um personagem.

Por fim, vale ressaltar que parte de nós também morre com o assassinato do professor em BH.  A relação professor-aluno sempre foi vista como sinônimo de vida; meus melhores amigos, meus ícones e minhas referências do que existe de melhor no ser humano vieram das salas de aulas, daquele local “sagrado”, onde as pessoas desenvolvem as próprias essências. Como é sabido, o mundo evoluiu com a Educação; não com a guerra.

*André Acioli é administrador, mestre pelo Coppead-UFRJ, consultor de empresas, professor universitário na Mackenzie Rio e fundador do Boteco do Conhecimento.

* Augusto Uchôa é formado em marketing, doutorando da Coppe-UFRJ, consultor de empresas, roteirista, professor universitário, criador do site Marketing com Fritas e fundador do Boteco do Conhecimento.

 

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